sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Uma dica...

... quando vocês tiverem alguém a quem admirem muito, falem claramente e diretamente.

Por que escrevo isso?

Bom, alguns amigos aqui que, por algum motivo, gostam que eu escreva algo por aqui, sabem perfeitamente bem que os últimos anos não me têm sido nada fáceis.

Com a perda de cinco amigos muito próximos (e mais meu "irmãozinho") em um curto espaço de tempo (considero quatro anos um curto espaço, pelo menos), tenho tentado levar a vida da forma mais sã possível. Com altos e baixos, doses de euforia, e tals... fora as guerras diárias com as quais tenho que lidar no trabalho, que, sim, perduram-se.

A pessoa da qual a perda acabei sentindo mais, foi o grande Ivan Merlin. Foi porque eu nunca disse nada a ele sobre o quanto o admirava, o quanto o amava como um pai, um eterno conselheiro, o quanto aquelas longas horas de conversas significaram para mim. Nunca. Nunca disse sequer alguma coisa mais carinhosa, porque eu era sem noção mesmo. Na verdade, eu era extremamente imatura e ele, nos 20 anos que nos separavam, já com muito mais experiência de vida e conhecimento, provou ser uma das melhores pessoas com quem já tive algum contato. Nossa cumplicidade durou por 10 anos, até que o destino apareceu. Ivan era extremamente paciente, aguentava meus longos momentos de devaneios, minhas fases de euforia, apoiou-me quando eu pensei que a vida não fazia qualquer sentido,  protegeu-me quando foi preciso... No entanto, é... nunca disse o quanto o queria bem, o quanto significava para mim.

Hoje, se a pessoa realmente é importante para mim, falo. Não que sejam muitas com as quais eu me identifique, mas, sim, procuro externar mais do que antigamente.

Mas... continuo, na essência, a mesma pessoa. =)

Eis uma música para esses momentos:

Há um trecho que mais ou menos diz:

"Terei de lutar sozinho as aventuras que lutávamos juntos.
Lutávamos nós dois juntos contra os dragões que cuspiam fogo... o que farei se você não mais acordar?"


sábado, 4 de novembro de 2017

Hoje mais um elo da corrente de minha vida tornou-se luz

A imagem do dia de hoje que guardarei para sempre é de minha ida à Capela Vaticano. Seria, talvez, um tanto quanto clichê se eu escrevesse que chovera em meu para-brisa. De fato, não o aconteceu: o dia esteve incrivelmente ensolarado, ultrapassando todas as esferas do lugar-comum de um dia triste. 

Observando o lusco-fusco que, por vezes, impedia-me de visualizar bem a estrada, lembranças acometeram-me. Lembranças daquelas que nos dão a sensação de que as coisas deram-se há muitos anos; mas que ao mesmo tempo parecem-nos que foram a minutos atrás. Pensamentos como “e se...?”, “por que...?” invadiram-me, tal como previsto. Tantas e tantas lembranças apoderaram-se de minha mente: momentos bons e momentos ruins, alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas. Ainda acho curioso como uns meros minutos podem guardar uma vida inteira; é uma sensação de atemporalidade assim como me acontece quando ouço algumas músicas que me marcaram, mas isso talvez porque eu mesma seja demasiadamente airada.

Quem me conhece um pouco que seja, sabe que não lido muito bem com a efemeridade da vida. A sensação de torpor em que me coloco diante de uma perda leva alguns bons anos para se dissipar. E, por obra do destino, ao longo desses últimos anos, perdi queridos amigos. Alguns me marcaram profundamente a exemplo do grande Ivan a quem eu, lá não tão grande fã do telefone, por horas a fio pedia conselhos; lia, empolgadamente, minhas medíocres “histórias”; declamava poesias decoradas ("Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso!") ou trechos da Ilíada (“Canta-me a cólera –ó deusa– funesta de Aquiles Pelida; causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta”) e contava de minha então pouca experiência de vida. 

Ivan, aquele cujo cabelo à la Beakman e sobrenome de mago eu achava “da hora”, cuja voz tão linda como a de um radialista das antigas (PRK-30 rules!!!) trazia-me grande paz de espírito. Ivan, a quem não consegui dizer meu último adeus e a quem não posso mais importunar, nem pedir perdão pelo meu afastamento, foi um verdadeiro pai, um conselheiro paciente que em meio a meus devaneios trazia-me de volta à Terra. Foi-se cedo demais deixando uma enorme cicatriz profunda em meu coração.

Mas, pois bem, após esse parênteses (não pude deixar de lembrar-me de Ariano Suassuna quando dizia que só conseguia falar por arrodeio, mas que ao final conseguia retomar de onde parara – o que, obviamente, não acontece comigo), retornando ao dia de hoje... “Viver é uma grande aventura do espírito” certa vez escrevera-me um grande amigo na contracapa de um dos livros que me dera de presente de aniversário. Essa mesma frase, escrita com uma caneta azul clara brilhante, estava agora estampada de alguma forma em meu para-brisa. Conheci-o no fim de 2007. Um ótimo professor de Química que conseguia ser sério e engraçado ao mesmo tempo. 

Pena eu não conseguir recordar-me como exatamente aconteceu nossa primeira conversa, mas lembro-me que um dia, no intervalo das aulas, numa espécie de grande aquário que era a sala de espera da secretaria, conversamos por cerca de 20 minutos sobre astronomia, mais especificamente sobre Stephen Hawking e Carl Sagan. A partir dali, passamos a conversar por horas e horas. Seu nome: Mustafá. Professor. Mestre. E amigo.

Carinhoso, divertido, sábio, mas também rigoroso: não me faltaram puxões de orelha nos momentos em que precisava aconselhar-me em algo. Se os nossos amigos em comum, Mário e Marga, foram como pais para mim, Musta era como um tio, digamos assim. Nem por isso media suas broncas, necessárias, diga-se de passagem; eu ainda era muito jovem e inexperiente. Sua voz ainda ressoa em meus ouvidos: “Mimi, pare com isso, você tem que saber lidar com pessoas ruins e negativas!” - e seguiam-se verdadeiras aulas de vida. Foram infindáveis conselhos e ensinamentos, alguns dos quais começo a entender somente agora aos 20 e poucos anos.

Porém, Musta tinha seu lado cômico enraizado em sua personalidade. “deixa eu ver essa sua meia de bichinho! não acredito que você ainda usa meias de bichinho! Mimi usa meia de bichinho!!!!”. As meias de bichinho tornaram-se por alguns anos objeto de piadas entre nós. Não, meu caro Musta, há muitos anos que não as uso mais... restam guardadas na memória junto com as lembranças desses anos inesquecíveis.

Lembro-me de um Musta que cantava sem parar logo depois de descobrir que eu adorara a então animação Madagascar: “Eu me remexo muito, eu me remexo muito... mas você gosta de desenhos ruins, heim, Mimi?”. Bem me lembro de um Musta cantando “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, ou daquele Musta que adorava brincar mesmo diante de problemas que surgiam (e me “atazanar” um pouquinho): “Já tenho essa praga dessa Mimi em minha vida e agora me aparecem outras!” Ah, Musta, quantas saudades...

Tão logo quanto terminei o ensino fundamental ou talvez um pouco antes, iniciei como trainee na produtora do famoso e querido Mário Mágico e sua amável esposa Marga, amigos que Musta um dia me apresentara. E o próprio começou a trabalhar conosco em vários projetos interessantes. Assim a folhinha foi virando seus dias, seus meses, seus anos. 

Por tantas coisas passamos juntos, por tantas alegrias e algumas tristezas. Lembro-me vivamente das tardes no café da Rua Emiliano Perneta, aquelas pausas durante o trabalho para conversarmos sobre tudo. Essa era nossa amada família, a confraria que construímos com laços que ficaram eternizados dentro de mim.

Lembro-me muito bem também do início de seus estudos literários para aprimorar-se na escrita; seu grande sonho era tornar-se um escritor. E assim o fez. Tornou-se um brilhante e respeitado, inclusive com um convite para fazer parte da Academia de Letras José de Alencar cuja posse iria acontecer em dezembro agora. Infelizmente, não pude felicitá-lo a tempo, e é muito triste não poder pedir perdão pelas minhas ausências.

Enfim, na corrente de minha vida, esses muitos elos que se tornaram luz, mas que jamais sumirão, continuam ligando outros elos ainda por aqui na Terra presentes. 

Passarei os dias com saudades e com sentimentos variados, confusos, tortuosos. 

Porém, certa de que o mais importante foi a dádiva que tive de conhecê-los em vida.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Consciência Cega ou Guiados por cegos


Cena comum de uma sala de aula. Alguns estudantes (talvez a minoria) escrevendo sem parar em seus cadernos tudo o que o professor fala (e, às vezes, até o que não fala, diga-se de passagem); outros desenhando qualquer coisa; muitos "voando" sem sequer saber o que está acontecendo ao redor; há aqueles que tiram uma soneca também; aqueles que conversam seja por celular, tablet, bilhetinhos... A minha escola onde passei parte do meu ensino fundamental e o primeiro ano do ensino médio era mais ou menos desse jeito. Dizem que hoje em dia só piorou. Bem, não leciono para esse público de forma que só posso acreditar que realmente o nível esteja bem mais complicado.

Logo que saí do terceirão (o fiz em uma escola excelente - que fechou (!), com um nível invejável de professores) para entrar na universidade, tinha a convicção que o nível de ensino universitário seria formidável. Sequer tinha dúvidas dentro de minha jovem cabeça: esperava encontrar colegas universitários interessados, até sedentos por conhecimento e professores engajados. Parece fato que quando a expectativa é muito alta, o tombo é maior. Tudo era um mero sonho. Tudo aquilo que eu desejava encontrar foi por água abaixo logo na primeira semana de aula. E o primeiro ano foi uma das experiências mais horríveis que já tive em uma academia.

A minha primeira reação de revolta foi contra os meus próprios colegas. Eu simplesmente não suportava vê-los dentro de uma sala de aula de uma universidade fazendo bagunça enquanto o professor tentava, inutilmente, lecionar. O zunzunzum era constante e até já havia professores que nem mais ligavam, já era como se fosse parte do cenário. Eu, que nunca tive problemas sérios de relacionamentos com colegas de classe até aquele momento, tive muitos dissabores. Nunca permiti que me rebaixassem, nunca sofri bullying, creio que partia mais de minha parte a repulsa pela turma do primeiro ano. 

Mas a revolta contra meus colegas não foi o final da minha traumática experiência de vida acadêmica. No início, muitos professores me apoiavam, elogiavam, conversavam comigo e me viam como um ponto fora da curva. Isso não durou muito, apenas poucos meses. Logo percebi que o problema não residia tão somente nos estudantes, mas também em muitos professores. Encontrei professores engajados sim, mas engajados em fazer proselitismo político em sala de aula. A prova maior era de que, um belo dia, resolvi me manifestar contra e o professor simplesmente disse que eu podia sair de sua aula que não levaria falta, só precisaria fazer a prova depois. As outras provas eram ver alguns dos meus colegas começarem a vir com camisetas da mesma ideologia política daqueles professores.

Certo dia, ainda no primeiro ano, um dos professores que ainda se salvavam no meio daquela equipe de militantes, me chamou em um canto para conversar e, vendo a minha total angústia, sugeriu que eu mudasse urgentemente de turma. Com uma dose grande de ceticismo, lá fui eu para a outra turma. Entrei como um filhote de algum animalzinho perdido, sem saber o rumo que aquilo iria dar. Percebi rapidamente que a turma era dividida e que havia um pequeno líder no meio de um grupo de cinco meninos. Parece que chamei a atenção dele após algumas aulas e o mesmo me convidou para fazer parte da equipe. Não nos separamos nunca mais durante os próximos três anos que viriam. Guardo na lembrança com todo o carinho aquele colega que de braços abertos me recebeu e que, juntos, percorremos aquela jornada. Aquele grupo de meninos foi o que permitiu que eu pudesse terminar o curso.

Claro que houve inúmeros outros problemas que tive no decorrer do curso, mas tudo foi uma grande experiência para mim. Pude entender claramente como é a academia e o sonho que eu tinha de lecionar na universidade foi caindo por terra. Cheguei a cursar o mestrado, porém é um assunto para outro post. 

Essa enorme descrição de minha vida universitária foi só para chegar neste ponto: a preparação básica de um professor. Insisto muito nesse ponto sobretudo lembrando de alguns professores de língua portuguesa (que é a área que estou me dedicando há uns anos, como já escrevi anteriormente). 

No caso de professores de português, se um determinado professor não domina a gramática básica (leia-se "dominar" não no sentido de sair decorando as regras, mas sim entendê-las), não vai dominar mais nada que se segue. É meio óbvio para mim essa questão. Se um professor não consegue redigir um texto curto lógico e compreensível, significa que não sabe o que é a própria língua portuguesa. Veja, não é que não saiba usar a língua, sabe sim, talvez até mais que muitos, porém é meramente um usuário da língua, nada mais que isso. E se é um usuário tão somente, não consegue sanar as dúvidas mais básicas dos alunos simplesmente porque nunca parou para refletir sobre as mesmas. Ou seja, não tem um conhecimento da língua, somente informações empíricas. Ora, professor é para explicar, sanar dúvidas, não sair impingindo regras prontas do tipo é-assim-porque-é-assim (ou nem isso). Porém o problema maior é quando a própria consciência desse tipo de professor não consegue enxergar isso. Acha que está certo porque lhe falaram que é assim e ponto final (e tem alguns que nem sequer ouvem as indagações de seus alunos). Quanto mais o professor dominar do assunto que leciona, mais suporte poderá dar ao seu aluno.

Bem, fico hoje por aqui que já é super tarde. ^.^

domingo, 29 de outubro de 2017

Apontamentos sobre métodos de ensino de línguas estrangeiras


Há algum tempo estou dedicando as minhas horas vagas ao estudo dos métodos de ensino de línguas estrangeiras (com foco no inglês e no português) e o que estou verificando pelos livros e artigos que estou lendo é que existe, como não é de se surpreender, uma "briguinha" entre correntes. Há autores que se preocupam mais em tecer críticas das formas que não apreciam do que explicar os motivos pelos quais escolheram este àquele método de ensino. Há uma forte corrente dos que dizem que o ensino da gramática não é mais válido e totalmente ineficaz (sim, há os radicais). Problema de egos, como sempre. 

Ainda estou compilando todas as ideias em minha cabeça para poder depois refletir, passar as noites pensando sobre todas essas informações que estou levantando e trazer para minhas aulas o que eu entender que possa engrandecê-las. 

Continuo na defesa da gramática no ensino. Pura. Correta. Assim como diria Evanildo Bechara: "o aluno não vai para a escola para aprender "nós pega o peixe"". Logicamente que o professor Bechara está se referindo ao ensino de língua portuguesa nas escolas e ao livro didático adotado nelas, mas penso que o ensino para estrangeiros também segue, grosso modo, essa mesma ideia: nenhum aluno vai para um curso querendo aprender um português mais ou menos ou se sentir "enganado" quando erra alguma coisa básica e não é corrigido para, no futuro, descobrir que estava falando/escrevendo errado. E, penso que, a melhor maneira de ensiná-lo corretamente é explicar a gramática, explicar em um nível e de um modo que o aluno possa entender.

Bem, não significa que minhas aulas são focadas só e tão somente na gramática. Mesclo situações do cotidiano que o livro texto propõe, muito diálogo nunca fugindo do conteúdo já aprendido.

O problema, na minha humilde opinião, não é ensinar ou não a gramática, mas sim COMO ensiná-la. Não há possibilidades de abordá-la como se estivéssemos ensinando para um nativo, obviamente. Então, o grande desafio é torná-la palatável, pouco a pouco, inseridas em um contexto (contexto esse que lhe seja útil, de seu interesse).

Cada aluno absorve de forma diferente o conteúdo. Tive muitos alunos ao longo desses anos de sala de aula, todos particulares e adultos. Posso dizer que cada um possui um jeito único de assimilar o conteúdo. Há muitas variantes na formação de cada um deles, de forma que não há como generalizá-los. Como faço? Procuro estudar, dedico bastante tempo a cada aula, com foco naquele aluno em questão, individualmente. Imagino-me no cenário (sala de aula com ele) e como seria sua reação frente a minha explicação. E, também, procuro anotar e revisar sempre diferentes formas de explicar determinada aula (se sinto que o aluno está tendo dificuldades para entender, parto para outro jeito de explicar, e assim por diante). 

Claro que a experiência em sala de aula conta muito. Cada vez mais sinto segurança e continuo lapidando constantemente minha metodologia. Cada vez mais aprendo com eles como preparar minhas próximas aulas. 

De todos as minhas incertezas/dúvidas, de uma coisa tenho absoluta convicção: há professores (não estou generalizando, quero acreditar que é uma minoria) que deixam de ensinar a gramática e defendem veementemente o não ensino da mesma por um único e simples motivo: não querem eles próprios estudarem, lerem, dedicarem-se, ou têm uma enorme dificuldade até mesmo na gramática básica (o que dirá capacidade para identificar, corrigir e explicar os erros de seus alunos). Para estes digo (ou escrevo, que seja): não há desculpas! Ensinando ou não a gramática, o professor precisa dominá-la sim para lecionar. Precisa estudar não só a gramática, mas também os métodos de ensino, precisa preparar suas aulas, ler muito... do contrário, sinto muito, trata-se de um picareta que não deveria estar sequer em uma sala de aula.