terça-feira, 31 de outubro de 2017

Consciência Cega ou Guiados por cegos


Cena comum de uma sala de aula. Alguns estudantes (talvez a minoria) escrevendo sem parar em seus cadernos tudo o que o professor fala (e, às vezes, até o que não fala, diga-se de passagem); outros desenhando qualquer coisa; muitos "voando" sem sequer saber o que está acontecendo ao redor; há aqueles que tiram uma soneca também; aqueles que conversam seja por celular, tablet, bilhetinhos... A minha escola onde passei parte do meu ensino fundamental e o primeiro ano do ensino médio era mais ou menos desse jeito. Dizem que hoje em dia só piorou. Bem, não leciono para esse público de forma que só posso acreditar que realmente o nível esteja bem mais complicado.

Logo que saí do terceirão (o fiz em uma escola excelente - que fechou (!), com um nível invejável de professores) para entrar na universidade, tinha a convicção que o nível de ensino universitário seria formidável. Sequer tinha dúvidas dentro de minha jovem cabeça: esperava encontrar colegas universitários interessados, até sedentos por conhecimento e professores engajados. Parece fato que quando a expectativa é muito alta, o tombo é maior. Tudo era um mero sonho. Tudo aquilo que eu desejava encontrar foi por água abaixo logo na primeira semana de aula. E o primeiro ano foi uma das experiências mais horríveis que já tive em uma academia.

A minha primeira reação de revolta foi contra os meus próprios colegas. Eu simplesmente não suportava vê-los dentro de uma sala de aula de uma universidade fazendo bagunça enquanto o professor tentava, inutilmente, lecionar. O zunzunzum era constante e até já havia professores que nem mais ligavam, já era como se fosse parte do cenário. Eu, que nunca tive problemas sérios de relacionamentos com colegas de classe até aquele momento, tive muitos dissabores. Nunca permiti que me rebaixassem, nunca sofri bullying, creio que partia mais de minha parte a repulsa pela turma do primeiro ano. 

Mas a revolta contra meus colegas não foi o final da minha traumática experiência de vida acadêmica. No início, muitos professores me apoiavam, elogiavam, conversavam comigo e me viam como um ponto fora da curva. Isso não durou muito, apenas poucos meses. Logo percebi que o problema não residia tão somente nos estudantes, mas também em muitos professores. Encontrei professores engajados sim, mas engajados em fazer proselitismo político em sala de aula. A prova maior era de que, um belo dia, resolvi me manifestar contra e o professor simplesmente disse que eu podia sair de sua aula que não levaria falta, só precisaria fazer a prova depois. As outras provas eram ver alguns dos meus colegas começarem a vir com camisetas da mesma ideologia política daqueles professores.

Certo dia, ainda no primeiro ano, um dos professores que ainda se salvavam no meio daquela equipe de militantes, me chamou em um canto para conversar e, vendo a minha total angústia, sugeriu que eu mudasse urgentemente de turma. Com uma dose grande de ceticismo, lá fui eu para a outra turma. Entrei como um filhote de algum animalzinho perdido, sem saber o rumo que aquilo iria dar. Percebi rapidamente que a turma era dividida e que havia um pequeno líder no meio de um grupo de cinco meninos. Parece que chamei a atenção dele após algumas aulas e o mesmo me convidou para fazer parte da equipe. Não nos separamos nunca mais durante os próximos três anos que viriam. Guardo na lembrança com todo o carinho aquele colega que de braços abertos me recebeu e que, juntos, percorremos aquela jornada. Aquele grupo de meninos foi o que permitiu que eu pudesse terminar o curso.

Claro que houve inúmeros outros problemas que tive no decorrer do curso, mas tudo foi uma grande experiência para mim. Pude entender claramente como é a academia e o sonho que eu tinha de lecionar na universidade foi caindo por terra. Cheguei a cursar o mestrado, porém é um assunto para outro post. 

Essa enorme descrição de minha vida universitária foi só para chegar neste ponto: a preparação básica de um professor. Insisto muito nesse ponto sobretudo lembrando de alguns professores de língua portuguesa (que é a área que estou me dedicando há uns anos, como já escrevi anteriormente). 

No caso de professores de português, se um determinado professor não domina a gramática básica (leia-se "dominar" não no sentido de sair decorando as regras, mas sim entendê-las), não vai dominar mais nada que se segue. É meio óbvio para mim essa questão. Se um professor não consegue redigir um texto curto lógico e compreensível, significa que não sabe o que é a própria língua portuguesa. Veja, não é que não saiba usar a língua, sabe sim, talvez até mais que muitos, porém é meramente um usuário da língua, nada mais que isso. E se é um usuário tão somente, não consegue sanar as dúvidas mais básicas dos alunos simplesmente porque nunca parou para refletir sobre as mesmas. Ou seja, não tem um conhecimento da língua, somente informações empíricas. Ora, professor é para explicar, sanar dúvidas, não sair impingindo regras prontas do tipo é-assim-porque-é-assim (ou nem isso). Porém o problema maior é quando a própria consciência desse tipo de professor não consegue enxergar isso. Acha que está certo porque lhe falaram que é assim e ponto final (e tem alguns que nem sequer ouvem as indagações de seus alunos). Quanto mais o professor dominar do assunto que leciona, mais suporte poderá dar ao seu aluno.

Bem, fico hoje por aqui que já é super tarde. ^.^