sábado, 4 de novembro de 2017

Hoje mais um elo da corrente de minha vida tornou-se luz

A imagem do dia de hoje que guardarei para sempre é de minha ida à Capela Vaticano. Seria, talvez, um tanto quanto clichê se eu escrevesse que chovera em meu para-brisa. De fato, não o aconteceu: o dia esteve incrivelmente ensolarado, ultrapassando todas as esferas do lugar-comum de um dia triste. 

Observando o lusco-fusco que, por vezes, impedia-me de visualizar bem a estrada, lembranças acometeram-me. Lembranças daquelas que nos dão a sensação de que as coisas deram-se há muitos anos; mas que ao mesmo tempo parecem-nos que foram a minutos atrás. Pensamentos como “e se...?”, “por que...?” invadiram-me, tal como previsto. Tantas e tantas lembranças apoderaram-se de minha mente: momentos bons e momentos ruins, alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas. Ainda acho curioso como uns meros minutos podem guardar uma vida inteira; é uma sensação de atemporalidade assim como me acontece quando ouço algumas músicas que me marcaram, mas isso talvez porque eu mesma seja demasiadamente airada.

Quem me conhece um pouco que seja, sabe que não lido muito bem com a efemeridade da vida. A sensação de torpor em que me coloco diante de uma perda leva alguns bons anos para se dissipar. E, por obra do destino, ao longo desses últimos anos, perdi queridos amigos. Alguns me marcaram profundamente a exemplo do grande Ivan a quem eu, lá não tão grande fã do telefone, por horas a fio pedia conselhos; lia, empolgadamente, minhas medíocres “histórias”; declamava poesias decoradas ("Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso!") ou trechos da Ilíada (“Canta-me a cólera –ó deusa– funesta de Aquiles Pelida; causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta”) e contava de minha então pouca experiência de vida. 

Ivan, aquele cujo cabelo à la Beakman e sobrenome de mago eu achava “da hora”, cuja voz tão linda como a de um radialista das antigas (PRK-30 rules!!!) trazia-me grande paz de espírito. Ivan, a quem não consegui dizer meu último adeus e a quem não posso mais importunar, nem pedir perdão pelo meu afastamento, foi um verdadeiro pai, um conselheiro paciente que em meio a meus devaneios trazia-me de volta à Terra. Foi-se cedo demais deixando uma enorme cicatriz profunda em meu coração.

Mas, pois bem, após esse parênteses (não pude deixar de lembrar-me de Ariano Suassuna quando dizia que só conseguia falar por arrodeio, mas que ao final conseguia retomar de onde parara – o que, obviamente, não acontece comigo), retornando ao dia de hoje... “Viver é uma grande aventura do espírito” certa vez escrevera-me um grande amigo na contracapa de um dos livros que me dera de presente de aniversário. Essa mesma frase, escrita com uma caneta azul clara brilhante, estava agora estampada de alguma forma em meu para-brisa. Conheci-o no fim de 2007. Um ótimo professor de Química que conseguia ser sério e engraçado ao mesmo tempo. 

Pena eu não conseguir recordar-me como exatamente aconteceu nossa primeira conversa, mas lembro-me que um dia, no intervalo das aulas, numa espécie de grande aquário que era a sala de espera da secretaria, conversamos por cerca de 20 minutos sobre astronomia, mais especificamente sobre Stephen Hawking e Carl Sagan. A partir dali, passamos a conversar por horas e horas. Seu nome: Mustafá. Professor. Mestre. E amigo.

Carinhoso, divertido, sábio, mas também rigoroso: não me faltaram puxões de orelha nos momentos em que precisava aconselhar-me em algo. Se os nossos amigos em comum, Mário e Marga, foram como pais para mim, Musta era como um tio, digamos assim. Nem por isso media suas broncas, necessárias, diga-se de passagem; eu ainda era muito jovem e inexperiente. Sua voz ainda ressoa em meus ouvidos: “Mimi, pare com isso, você tem que saber lidar com pessoas ruins e negativas!” - e seguiam-se verdadeiras aulas de vida. Foram infindáveis conselhos e ensinamentos, alguns dos quais começo a entender somente agora aos 20 e poucos anos.

Porém, Musta tinha seu lado cômico enraizado em sua personalidade. “deixa eu ver essa sua meia de bichinho! não acredito que você ainda usa meias de bichinho! Mimi usa meia de bichinho!!!!”. As meias de bichinho tornaram-se por alguns anos objeto de piadas entre nós. Não, meu caro Musta, há muitos anos que não as uso mais... restam guardadas na memória junto com as lembranças desses anos inesquecíveis.

Lembro-me de um Musta que cantava sem parar logo depois de descobrir que eu adorara a então animação Madagascar: “Eu me remexo muito, eu me remexo muito... mas você gosta de desenhos ruins, heim, Mimi?”. Bem me lembro de um Musta cantando “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, ou daquele Musta que adorava brincar mesmo diante de problemas que surgiam (e me “atazanar” um pouquinho): “Já tenho essa praga dessa Mimi em minha vida e agora me aparecem outras!” Ah, Musta, quantas saudades...

Tão logo quanto terminei o ensino fundamental ou talvez um pouco antes, iniciei como trainee na produtora do famoso e querido Mário Mágico e sua amável esposa Marga, amigos que Musta um dia me apresentara. E o próprio começou a trabalhar conosco em vários projetos interessantes. Assim a folhinha foi virando seus dias, seus meses, seus anos. 

Por tantas coisas passamos juntos, por tantas alegrias e algumas tristezas. Lembro-me vivamente das tardes no café da Rua Emiliano Perneta, aquelas pausas durante o trabalho para conversarmos sobre tudo. Essa era nossa amada família, a confraria que construímos com laços que ficaram eternizados dentro de mim.

Lembro-me muito bem também do início de seus estudos literários para aprimorar-se na escrita; seu grande sonho era tornar-se um escritor. E assim o fez. Tornou-se um brilhante e respeitado, inclusive com um convite para fazer parte da Academia de Letras José de Alencar cuja posse iria acontecer em dezembro agora. Infelizmente, não pude felicitá-lo a tempo, e é muito triste não poder pedir perdão pelas minhas ausências.

Enfim, na corrente de minha vida, esses muitos elos que se tornaram luz, mas que jamais sumirão, continuam ligando outros elos ainda por aqui na Terra presentes. 

Passarei os dias com saudades e com sentimentos variados, confusos, tortuosos. 

Porém, certa de que o mais importante foi a dádiva que tive de conhecê-los em vida.