quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

(O MISTERIOSO MERCADOR) EPÍLOGO – NA VISÃO DE REID MIRTHAL

 Fala, meus caros.

Segue o epílogo, quentinho do forno.

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 Reid Mirthal, junto com seu fiel cavalo Quíron, corria desesperadamente pelo que foi a momentos atrás o campo de uma sangrenta batalha. Passando por inúmeros corpos à procura de algum sobrevivente que estivesse precisando de auxílio, mordia fortemente os lábios em súplica. Justo Reid, um dia príncipe de um grande reino e aquele que fora o único sobrevivente de seu povo na última guerra, revivia agora, vinte anos depois, a mesma experiência de perder exércitos inteiros.

Ao chegar à floresta, Reid desceu do cavalo e pôs-se a escutar atentamente a todo e qualquer som. A estranha névoa espessa que tomara conta do ambiente não o permitia visualizar bem onde se encontrava. Começou a andar vagarosamente guiando Quíron consigo. Suas costelas começaram a doer e cada passo tornava-se um martírio, até que não mais conseguindo prosseguir, sentou-se no chão para repousar. Fechou os olhos e seus pensamentos levaram-no para a semana anterior à batalha. As imagens da lembrança eram ofuscadas, mas as vozes muito claras:

- Amanhã invadiremos o Reino de Ebrin. – Lihan afirmava categoricamente - Prepara a infantaria que partiremos ao raiar do sol.

- É um suicídio, Lihan. – Reid erguera a voz em um tom ríspido – E ainda tu matarás a todos do reino.

- Ponha-te em teu lugar, Reid. Tu não tens capacidade de ver um palmo a tua frente, quem dirás julgar meus atos? Tua invídia te cegas. – Lihan disse, palavras cortadas entre dentes.

- Cego estás tu, Lihan. Ceifarás vidas inocentes que estarão batalhando tão somente em prol de teu egoísmo.

- Cala-te! Cala-te ou revelo a todos esses teus olhos precitos.

- Que seja! Já ando farto de usar essas vendas.

As memórias foram interrompidas por um barulho de passos arrastados em folhas. Reid abriu os olhos e viu um jovem guerreiro (teria uns 10 anos?) andando vagarosamente em sua direção.

- Senhor... ajuda-me, senhor. – a voz era tão infantil e dolorosa que o coração de Reid partiu-se.

Correu à direção do jovem e, antes que este caísse no chão, segurou-o firmemente nos braços. Sua costela reclamou, mas ignorando-a, sentou-se colocando o rosto do menino no colo. Tirou de seu bolso um pano branco e um frasco de vidro envolto em couro com um líquido azulado. Embebedando o pano, começou, silenciosamente e delicadamente, a limpar seus ferimentos. Esquecera de que estava sem a venda e quando o menino abriu os olhos, assustou-se ao ver a cor dos seus. Apavorado, tentou levantar-se para fugir. Os olhos de Reid eram de um verde púrpuro, ele era um cidadão de Kolyra, uma ilha que fora dizimada há pelo menos duas décadas por ter sido considerada amaldiçoada.

- Ora, aquiete-se. - disse Reid segurando-o.

O menino parou de se debater, sem desviar os olhos dos de Reid, boquiaberto, assustado.

- Se soubesse que irias reagir como se na presença de uma assombração, teria te deixado perecer. - disse firmemente - Irás sentir-te melhor em breve. Qual teu nome?

- Harik, senhor Elyssar.

- Meu nome verdadeiro é Reid. Não o revele a ninguém. – deu-lhe uma piscadela simpática enquanto continuava a limpar-lhe as feridas do rosto.

- Senhor Reid...

- Pois não, jovem Harik?

- Isso é um sonho, não? - perguntou de olhos semicerrados.

- Tal como queira, meu jovem. Agora beba um pouco de água. – Reid retirou seu cantil do cinto e ajudou-o a beber.

Foi quando sentiu uma mão firme em seu ombro, levantou os olhos e reconheceu Lihan.