quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

(O MISTERIOSO MERCADOR) EPÍLOGO – NA VISÃO DE LIHAN VAN HART

Galerinha do mal,

Segue o presente epílogo saindo do forno. 

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Lihan Van Hart ergueu-se penosamente do chão, cambaleando, não conseguia ver nada, seus olhos estavam encharcados de um líquido espesso e escuro. Em um movimento brusco, tirou a máscara roxa escura de seu rosto e com as costas da mão suja de terra tentou secar o sangue já coagulado. Seus olhos arderam como se estivessem em chamas enquanto lágrimas acumularam-se. Ainda sem poder andar firmemente ou ver claramente, tateou os troncos das árvores até conseguir visualizar com dificuldade um espaço mais claro. Uma névoa acinzentada estranha insistia em preencher o ar. Não tinha certeza de onde estava nem ao menos podia distinguir claramente o que estava a sua volta. Pé ante pé, andou vagorosamente, segurando firmemente a máscara em sua mão. Foi quando tropeçou em algo e se desequilibrou, quase indo ao encontro do chão novamente; segurou-se no galho mais baixo de uma árvore e se recompôs. E então, finalmente, seus olhos se acostumaram à pouca claridade começando a distinguir o cenário a sua volta.

No entanto, preferiria não ter recuperado a visão; o que viu iria ficar por toda sua vida em sua memória: era como um mar de corpos por todos os lados. A floresta, que um dia era de um verde suntuoso, agora se resumia em árvores devastadas e terra revirada. O ambiente, todo de um plúmbeo desbotado, parecia que havia saído de uma cena de Dante; com efeito, era como se Flégias tivesse-o guiando em seu barco pela travessia do Estige. A cada passo reconhecia inúmeros rostos queridos de seus guerreiros, seus arqueiros, sua montaria, os magos de Galahad, os cavalos, os dragões, as quimeras. Lançou-se abruptamente de joelhos ao chão enquanto vertiginosas imagens começaram a circular em sua mente como uma grande espiral angustiante. É um suicídio, Lihan. A voz tão vívida de Reid em um tom ríspido invadiu sua mente. E ainda tu matarás a todos do reino.

Juntando todas as forças que conseguira, levantou-se novamente cambaleando. Ponha-te em teu lugar, Reid. tu não tens capacidade de ver um palmo a tua frente, quem dirás julgar meus atos? tua invídia te cegas. À medida que andava via mais e mais morte, destruição, caos. Cego estás tu, Lihan. Ceifarás vidas inocentes que estarão batalhando tão somente em prol de teu egoísmo. Até que distinguiu ao longe uma sombra de alguém ajoelhado que segurava a nuca de um jovem guerreiro muito ferido e o ajudava a beber água de um cantil. Correu até o encontro deles e reconheceu Reid, o dono da voz que o atormentava; talvez a pessoa com que Lihan mais nutria antipatia nesses últimos anos, mas que, naquele momento, o único que poderia ajudá-lo. Alcançou-o e apoiou a mão em seu ombro. Reid ergueu o rosto e virou-se em sua direção.

- Lihan. – cumprimentou-o serenamente, seu rosto empapado de suor e terra, com filetes de sangue desenhando estranhas linhas.

- Yohan? – Lihan suplicou com seu olhar a Reid enquanto apertava mais firme seu ombro.

Reid olhou-o e permaneceu em silêncio por alguns segundos que para Lihan pareceu uma eternidade. Então, apoiou a mão sobre a dele e a apertou. De seus olhos escorreram lágrimas quando ele meneou a cabeça negativamente. Lihan voltou o olhar para o horizonte; a dor em seu peito era insuportável. Em sua visão, milhares de seu exército jaziam sem vida; e agora soube que seu filho também fazia parte dessa contagem. Como iria conviver com aquela dor?

E pareceu que aquele era um momento em que deveria deixar as desavenças de lado. Reid estendeu a mão para Lihan, ergueu-se e o abraçou fraternalmente. Lihan aceitou aquele apoio, fechou os olhos firmemente como se aquele gesto pudesse apagar a dura realidade e chorou no ombro daquele que julgava ser o último a quem recorreria.

Esse foi o término da Grande Batalha, mas o início do fim dos tempos.

 

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