Por anos, vivi estressada e frustrada. Não conseguia dormir e estava sempre cansada. Minha vida era um inferno.
Talvez (?) seja possível considerar que meus problemas se agravaram com a performance nos estudos e na natação. No sentido que, desde pequena, ganhei medalhas tanto por notas altas quanto por obter classificações nas competições de nado livre. O programa PosiCobra me incentivava a obter excelente resultado na escola. Os elogios pela dedicação nos treinos de natação permitiam que eu continuasse me esforçando.
Era legal continuar progredindo; todo dia sentia melhores resultados e meus amigos me tinham como um exemplo. Na escola fundamental, era líder e nunca tive problemas com bullying.
Certa feita, um professor de Português, chamado Juarez, convidou-me para participar do programa de estudos de reforço. Basicamente, eu ajudava colegas com produção de textos, literatura e matemática. O lugar de destaque a que isso me levou, fez-me sentir mais inteligente que os demais.
Aqui um breve parênteses: a falta de tempo (eis que a natação, as aulas de desenho, de inglês, de japonês, de karatê, de violão, os estudos, os diversos problemas familiares, consumiam todos meus dias) não permitia que eu continuasse apoiando Daniel com todos seus altos e baixos; e seus ataques de euforia, ciúmes e depressão começaram a me incomodar. Mas tudo que se sucedeu faz parte de outra história - quem sabe um dia transcreverei.
Olhando para trás, eu era exigente tanto comigo quanto com os meus colegas. Comecei a ficar arrogante. Encontrava erros dos demais e me irritava: "Por que isso?!"; "Por que não entende?"; "Quantas vezes é preciso falar?"; "Esse pessoal não tem cérebro!".
Comecei a odiar os treinos de natação e, principalmente, as aulas. Irritava-me profundamente os professores sendo prolixos, lentos nas explicações ou quando cometiam erros crassos. Vivia em frustrações.
Então, passei a não ir mais às aulas, pulava os treinos físicos. Estranho, não? No início, era tudo legal. Mas fiquei arrogante demais; culpava terceiros, cada vez mais a repulsa pela escola me consumia e eu não percebia o quanto estava mal. Sem noção.
Com a falta de treino, vieram as derrotas na natação. Com a falta de frequência na escola, a medalha de ouro do PosiCobra virou de prata. Com a queda na performance, os colegas faziam questão de enfatizar minha baixa no rendimento. E veio o stress. No desespero de recuperar o posto que ocupava, voltei arduamente aos treinos e a assistir às aulas. Sob imensa pressão, logo já não discernia coisas que gostava de fazer daquelas que eu não gostava. Entrei em profundo estado de ansiedade.
Fiquei perdida de vez. Parei com a natação, com o desenho, inglês, japonês etc. Não respondia mais os amigos e familiares. Rejeitei sair com Daniel diversas vezes. Minha família chegou a cogitar que eu estava entrando no mundo das drogas. Passei a não dormir direito.
A insônia me perseguiu nessa época. Não gostava mais de nada. Sentia-me sempre cansada; o desejo de fazer qualquer coisa se apagou. Meu cérebro parecia quebrado; cometia erros básicos. Em profundo stress me afastei de todos de vez. Ataques de ansiedade faziam parte do meu dia-a-dia. A realidade parecia muito distante de mim. De tudo, queria fugir. Pensamentos de suicídio invadiram minha mente.
A vida era um inferno. Então, percebi que o inferno estava dentro de mim, não fora. O inferno não é um mero conto ou só existe após a vida material. O inferno é aqui. Fiquei presa nele esse período. Foi horrível. Perdi toda a confiança e não acreditava mais em mim mesma.
Aí tudo isso se fechou com a decisão que Daniel tomou (outra história!). Naquele momento, perdi a vontade de me expressar; tudo que acontecia em termos de sentimentos - sejam quais fossem - permanecia tão somente dentro de mim.
Porém, eu queria melhorar. Tentei me conectar comigo mesma. Comecei a refletir profundamente, a analisar minhas atitudes e pensamentos.
Outro parênteses que devo abrir por aqui é que, por volta dessa época, conheci o professor Mustafá. Este, um dia disse-me que o único lugar possível para ir quando se está no topo, em primeiro lugar, é ladeira abaixo e que, quando isso acontecesse, era para eu espiritualmente aceitar.
Entendi o peso que eu carregava para manter uma posição de destaque e o quanto uma mera queda na colocação me atingia negativamente. Entendi que a arrogância me cegava também. Sempre me sentia mais inteligente e capaz que os demais. Pensando assim, eu não conseguia amadurecer. Arrogância e orgulho não permitiam ver quem eu realmente era.
Creio que até hoje, ainda goste de "me achar" ao enfatizar minhas habilidades e inteligência, então ainda carrego um certo grau de arrogância dentro de mim.
Entretanto, de acordo com Shinran Shonin, desejos mundanos, incluindo-se a arrogância, nunca desaparecem enquanto estamos vivos. No Jodo Shinshu o objetivo não é extinguir completamente a arrogância de nossas mentes, mas, sim, reconhecê-la e entendê-la. Penso que se alguém se esforça muito em ser humilde, verdadeiramente não o é.
Conseguindo captar essas coisas que escrevi, vi que mudanças eram necessárias. Atualmente, faço natação por gostar mais do que por competir. Estudo o necessário para ir bem, leio o que gosto. Não me importo mais com colocações; já não ligo (muito) se pintar um 8 ou 9 no boletim. O tempo tem passado rápido assim e tenho dormido melhor.
E assim vão-se os dias.

